Pesquisador explica origem de sotaque e fala sobre post polêmico

”Não há hierarquia regional no Brasil, nenhuma região está acima de outra,” diz escritor.


O escritor e pesquisador Marcos Damasceno, desaprova a publicação postada nesta segunda-feira (04), pela página de humor de Teresina e afirma que qualquer post que diminuem uma região ou cultura deve ser repudiado.

“Todo lugar deve prezar pela sua originalidade. Há de ser dito, que a visão capitalista é que tenta elevar a importância de lugares. É uma prática secular em que alguns povos insistem em querer diminuir outros povos, e, assim, desqualificar seus costumes. Não há hierarquia regional no Brasil, nenhuma região está acima de outra. Devemos reprovar sempre, e repudiar, as iniciativas que insistem em reduzir o significado existencial de nossa região e de nossa cultura. Às vezes, nos deparamos com imagens negativas que tentam reproduzir uma prática secular e perpetuar um clichê imagético de subjugar nosso lugar e nosso povo”, explicou o pesquisador.

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Marcos Damasceno da sua opinião sobre o post polêmico.

Damasceno esclarece sobre a origem do sotaque sanraimundense: “O nosso sotaque vem de nossa colonização, enquanto povo e lugar. Da nossa formação familiar e da nossa construção regional. Da união do povo europeu, do povo afrodescendente e do povo indígena. Todo lugar tem seus padrões e seus conceitos. Expressamos nossa cultura também pela nossa voz, pela forma como pronunciamos as palavras. É algo particular e característico de cada lugar, não podemos ter aversão por pessoas diferentes, de lugares diferentes, que pensam diferente, que falam diferente, que vivem diferentes. Como também, não podemos ter vergonha de nossa origem; origem de vaqueiro, de indígena, de afrodescendente, de sertanejo” pontua.

O escritor fala também como sotaque contribui para cultura.

“O autorrespeito é o alicerce do respeito dos outros para conosco. Como nos vemos? Como coitadinhos? Devemos nos ver como povo de valor histórico e protagonista de sua história! A nossa autoestima nos faz fortes ou fracos diante do mundo. Não podemos nos anular, enquanto povo e lugar, para vivermos a submissão de quem tenta nos oprimir ou diminuir. Portanto, entra a necessidade de nossa afirmação. A globalização é uma faca de dois gumes: nela há coisas boas ou más, dependendo da ação do homem. Por um lado, a globalização tende a nos afastar de quem está perto ( de nosso lugar e de nossas coisas) e nos aproximar de quem está longe (as terras alheias, as coisas dos outros); por outro lado, a globalização universaliza a comunicação. Nesse caso, a globalização permissiva prejudica a importância e a manutenção da cultura de um povo,” pontuou.

Sobre o caso exposto na intenet, ele aponta o meme como xenofóbico.

“Meme” é uma nova linguagem cultural. No entanto, como toda linguagem, pode ser usado positivamente ou negativamente. O “meme” sendo uma “midiotice”, se alimentará de imbecilidade. Xenofobia é preconceito, é ódio, é crime (Lei Federal n° 7716, de 1989). O ódio, por exemplo, não está na internet. Ele está nas pessoas, e é levado por elas na intenção do mal. É nosso direito humano ser como somos, produtos de nosso meio cultural, e também é nosso direito humano de migrar. Não podemos ser desrespeitados pela nossa condição de nativo ou pela nossa condição de migrante. Há uma clara intenção em reproduzir o modismo europeu. Há uma questão ainda mal resolvida no Brasil entre a Casa-Grande e a senzala, ou seja, sobre a origem e a emancipação de cada povo. Há de ser observado que o preconceito de hoje, é o de sempre: foi inoculado desde a colonização do Brasil”, conclui.

Por Joselma Ventura


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