*Gênesis Naum de Farias
O despertar de um novo escritor se completa quando os sentidos de sua existência atentam-se para as fronteiras do seu interior, numa intensa repulsa marcada pelas sagas e lendas de suas experiências com a solidão.
Esse despertar demarca a sua existência transferindo forças para a grande viagem do conhecimento rumo aos grandes mistérios criados pela realidade.
É neste momento que o labor da escrita norteia a vida de quem se entrega a essa mistura de sentimentos valorizada pela autocrítica. E o auto-conhecimento influência o dissipar sintomático para certa liberdade, conquistada pela coragem de se fazer habitado por muitos mundos.
Neste contexto, o fabulista conjuga a natureza de forma reveladora, para materializar o trágico e o belo no desenrolar de um sofrimento solitário, que ao mesmo tempo é sóbrio e envolvente na contemplação das tristezas do mundo.
Esse universo se reúne através da crença nas idéias; entre elas, o poder de sintonia segue colhendo entusiasmos através da introspectiva noção do criar. Afinal, o universo literário segue a ordem vital na coerência de se mostrar deslumbrante, fantástico, mágico.
Impressionei-me ao ver toda esta solidão nas personagens do livro do jovem escritor Orestes Jayme Mega; pois vem do próprio punho tal confirmação; seja ela através das letras, seja na idealização dos desenhos dos contos, na estrutura do livro, seja na certeza de um trabalho com a emoção.
E, agora, sobre a própria condição do escritor: é preciso submetê-lo a vivencia, para de certa forma, ser testado, esperenciado e sepultado o homem velho. Esse processo requer solidão, paciência e humildade. Orestes deverá compreender esse caminho para que ressurja do obscuro uma expressão indizível, firme e amadurecida no encontro dos mundos; ora habitado pela incompreensão, ora habitado pelo silêncio.
Em Um Quarto Escuro Para Catarina e Outras Histórias, está presente intensamente o sentimento da ternura, do recolhimento e do reconhecimento mútuo, revelando a fragilidade infinita do ser humano.
Parece um tanto contraditório que o autor se saiba anárquico quando suas potencialidades evidenciam outras virtudes, ao se referenciar com as significações da criação para re-inventar os motivos de suas reflexões se deparando com o profano e o infinitamente horrível da realidade, fazendo tudo isso coincidir para uma mesma órbita de elegância dada aos personagens, onde a tortura e o assombro margeiam a aflição, a crueldade e os infortúnios do sofrimento humano.
São estes os elementos descobertos nas histórias deste novo iniciado na literatura que precisam ser percebidas ao longo de sua leitura, como estigmas centrais nos descaminhos a serem enfrentados rumo à consolidação da palavra escrita.
Cabe ao próprio Orestes, a partir de agora, dialogar consigo mesmo para saber empreender novos rumos a sua descoberta poética; onde a percepção do humano possa lhe dar vazão à sinergia da humildade, quando a busca pessoal pela integridade lhe assegurar íntima convicção do livre-pensamento, ficando clara suas imperfeições, desejos e suas futuras odisséias nesta nau que o transporta para uma longa viagem pelo tempo e, que sejam plenos as suas vontades...
*Poeta Bruxulesco,
Membro da Academia de Arqueologia e Preservação Patrimonial
Universidade Federal do Vale do São Franciosco Univasf
Campus Serra da Capivara
São Raimundo Nonato/PI