Gênesis Naum de Farias
Acadêmico de Arqueologia e Preservação Patrimonial
Universidade Federal do Vale do São Francisco Univasf
e-mail: cabarebruxulesco@yahoo.com.br
A Descoberta Parte I
Nasci no final da década de 70 do século XX e fui mais um ser humano que se permaneceu numa época em que a grande novidade era converter e assimilar a rebeldia como um item a mais no processo de alienação. Mas o século XX não foi só alienação, e através da leitura aprendi a sentir a história desse rebelde com a sutileza de um romântico intelectual anarquista.
A maior decepção foi ter chegado ao ensino superior sabendo que nossas universidades já não vivenciavam o calor da rebeldia iconoclasta e explosiva, de um século que foi marcado por tantos movimentos que pretendiam demolir a tradição em arte, política e comportamento, acabando por criar uma tradição de intelectuais rebeldes que parecem ter sido derrotados pelo fim das utopias na virada do último século.
Era como se a tudo o que aconteceu nas primeiras décadas deste período histórico, tivesse sido aperfeiçoado para caracterizar um controle social altamente perverso e castrador, afinal as mudanças de comportamento refletem isso.
Mesmo tendo nascido no final de um grande século, a paixão pelo conhecer me transformou num dândi provocador, num poeta maldito, num ser encantado. Essa razão de ser, acendeu um rastilho de idéias, acenando como uma atitude desafiadora: aprender a ler o mundo com outros olhos. Foi assim que aprendi a sonhar lendo o mundo com o desafio de modificá-lo nos parâmetros de minhas ações.
A leitura sempre foi minha grande paixão; desde cedo descobri nela uma outra parte de mim enfocada similarmente nas descobertas do imaginário poético, universalizado pelo conhecimento do passado nas personagens que iam me formando enquanto homem.
A arqueologia dos meus saberes, por esta época já se fundamentava numa busca permanente pelos caminhos do conhecimento; às vezes embrutecido pelo frio arpejo de suas descobertas, às vezes desencontrados, mas com a firme certeza de que o que buscava sempre estava permeado pelo tom e a destreza da aprendizagem.
O filósofo francês Gilles Deleuze pregava que o homem era fruto do seu ponto de vista, por este motivo aperfeiçoei todo este espírito romântico, colhido nas experiências com a literatura, para fortalecer o meu espírito para enfrentar os desafios que realidade me ofereceria no futuro. No mais, quando adentrei os portões da universidade para cursar minha primeira graduação, levei comigo toda àquela inquietação, que como dizia Rimbaud, viria ao mundo para anunciar a mudança de vida. Este Poeta me levou a acreditar na capacidade de sentir e ser gente, fazendo-me repensar valores e ampliar a consciência íntima no universo que me abrigava.
Aprender a ler, foi pra mim, um processo mágico, o mais inesquecível. Lembro-me de ter vivido muitas eternidades olhando para o papel, em infâncias grandiosas, na esperança de envelhecer e abrir-me para o fantástico daqueles mundos. Com isto, aprendi a amar, sendo um poeta subitamente misterioso que combinava amor, paixão e uma grande descoberta pelos livros.
Dos livros me revelei ao mundo, na transparência de um encantamento juvenil, assim vivido permanentemente, já que ainda hoje se restaura em mim a segurança e a motivação para buscar o conhecimento nas obras literárias, que me tomavam de assalto numa profunda integridade com o belo e o profano, no devanear pelos caminhos da poética.
No dia em que me soube leitor, as circunstâncias me legaram uma grande existência, feita de sonhos e ficcionada paradoxalmente pelos sentidos subjetivos do prazer, tornando-me um ser pragmático e praxiológico. Neste contexto de descobertas e decepções, uma pergunta invadia-me sempre: como penetrar na esfera dos significados do nosso tempo? Gaston Bachelard nos fala de uma estética da angústia, para construir a facticidade que obstina a imaginação a transpor os fatores do nosso cotidiano na ânsia de ampliar conceitos, através do processo formativo, para fixar perspectivas que esquematizem as multireferencialidades da realidade apreendida.
Essa experiência primordial e fundamental, foi sem dúvida, a força propulsora da vida que escolhi viver e que, estou certo, acabaria vivendo sem a ter escolhido: ser Poeta!
A minha busca intelectual ia se permeando por estes pressupostos filosóficos, porque sei que a realidade deste universo pós-humano é bem desumana e, soma o meu sonhar aos dos grandes poetas e filósofos que tentavam acordar a humanidade do sono funéreo da especulação e da desordem moral.
Não me compreendo se não compreendo o outro, dizia Paulo Freire em seus escritos de posteridade, por isso sou um ser inquieto que escreve também para a posteridade, com a firme convicção de que um dia trilharemos e entraremos nas cidades cantando hinos de humanidades.
Durante muito tempo vivi para dentro, numa intimidade muito profunda que ao me abrir para o mundo, me descobri cheio de vazios, alegrias, paridades e desassossegos.
Cultivei-me quanto pude, caprichoso e refinado. Ampliando minhas limitações humanas, conheci os poetas, os romancistas e, me tornei um romanesco que vê o mundo como um caleidoscópio, cheio de aventuras, heroínas e poéticos sensos comuns.
Mergulhei neste senso comum misterioso com José Mauro de Vasconcelos, autor do célebre livro Meu Pé de Laranja Lima, num primeiro descobrimento; depois tudo me iluminava e conferia ao cotidiano uma poesia de profundo sentido mítico, pois as perguntas surgiam e tornava-me um filósofo da vida sentimental do mundo.
O conhecimento que me era permitido conhecer se somava a uma grande viagem que me permitia fazer pelo passado para se afirmar o presente, portanto devia ser trilhado com a convicção de uma descoberta sem malícia, na certeza da construção dos pilares deste mesmo aprendizado.
E compreendendo as dificuldades da nossa realidade familiar, nos seus aspectos econômicos, eu ia construindo para mim um outro mundo através da leitura: menos vazio e mais cheio da espiritualidade do infinito.
Outro dia me dizia um autor inglês, do qual sou leitor arvorado, que os tempos mudariam quando as pessoas passassem a escrever suas próprias histórias dialogando com o presente, sem hedonismos, sem preconceitos e sem as maldades do dia-a-dia.
Por isso entendia que a literatura e a arte do passado e do presente, me projetavam ao mundo com a sutileza e a leveza dos pássaros. Estes universos me deram o divórcio para com a inocência e forneceram preciosos elementos para lidar com as pessoas que se me apresentavam.
Também foi o conhecimento da literatura que depurou minha sensibilidade para bem usufruir as boas coisas do mundo que se eternizavam misteriosamente no meu cotidiano.
Depois conheci Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé, Oscar Wilde, Jorge Amado meu escritor predileto Quintana, Carlos Drummond de Andrade, Plínio Marco e João do Rio; com este último, aprendi a ver a vida marginalizada pelos hedonismos da inquietude individualista dos seres humanos. Foi quando descobri Álvares de Azevedo e me tornei um romântico convicto. Este poeta até hoje me faz buscar em tudo o absoluto som do infinito. Absoluto este, que se constrói, se reconstrói e se destrói.
Mas a poesia se aclarou quando li Machado de Assis e me perverti com sua destreza e seu comportamento, suas sutilezas e seus rituais. Depois me veio Clarisse Lispector, para me deixar intimista, mas foi Castro Alves que me embriagou pelo funéreo sentido da liberdade. Este poeta sempre fez parte do que sou hoje; um ser que busca a liberdade para se auto-afirmar no complexo mundo das idéias.
Sua clareza e erudição me desafiaram a ser um intelectual de mutações que ao mesmo tempo pertence às multidões, mas é desencontrado e vazio na sua solidão.
No permanente exercício da leitura destes escritores, o que ia me impressionando era justamente a capacidade que ainda têm de expressão verbal através do poder de persuasão, juntando a tudo isto as habilidades de relacionar logicamente, de enriquecer o real pelo rico mundo das metáforas.
Ainda quando adolescente conheci dois poetas Ribeirinhos donos de uma humanidade que até hoje me aplaca os sentidos. São eles: Virgílio Siqueira e Maurício Ferreira, ambos de um sertão que nos é capaz de ensinar como se dá a criação poética, porque são exímios escritores de vidas inesgotáveis. Eles me ensinam que o nada é real se não escrevo como dizia Virginia Woolf.
O universo da leitura ia aos poucos me tirando do lugar comum para me transportar para um universo só meu, acabando por me obstinar a sonhar com uma liberdade que só existia no mundo da ficção.
Parecem tolas as minhas convicções, mas refletem a pessoa que sou, tendo em vista que sou um entusiasta da educação pelo conhecimento que se dá a cada instante em nossas vidas. A leitura, como forma de anarquia, me deu virtudes e riqueza, me deu angústias e liberdade, porque me transporta, fatidicamente, para um universo que precisa ser descoberto, transformado e orquestrado.
Ao devanear sobre essa anarquização estética pela capacidade de pensá-la, quero distinguir de maneira absoluta a esquematização das multiplicidades que mutilam a realidade para fixar nossas perspectivas e maturidades no mundo que se me apresenta no cotidiano. Por isso escrevo com afinco para desprender minhas reflexões, tornando-me um fazedor de palavras para conscientizar o meu mundo através da percepção do presente num futuro que se anuncia vazio, e cheio de paridades.
Hoje, parece complicado devanear sobre qualquer coisa, ainda mais se estas estão sobre o manto diáfano da desilusão, do pessimismo, do niilismo, dos achismos e dos ismos. É como se filosofar fosse um ato banal e não tivesse a devida importância para as pessoas no convívio social.
Portanto, essas marcas são as insígnias de que estou vivo e sonho com um mundo que ofereça qualidade de vida diante da falta de utopia deste início de milênio, provas de que o último século nos deixou varias incertezas...
O Poeta Parte II
O escritor Paul Auster costuma sentir-se muito deprimido quando termina um livro. É como me sinto ao concluir esta lavoura de arroubos itinerantes, que roteiriza um ponto de partida sem qualquer pressa em decifrar enredos ou momentos de puro hermetismo na experiência concreta com a sensibilidade do mundo da poética.
Eu, às vezes, me vejo como o Fausto de Goethe, que depois de tanto estudar filosofia, teologia e praticar poesia, confessa-se um pobre ignorante, entregando-se à magia; no tatear das palavras que se consolidam nas entranhas do tempo, numa cadeia de marcas imprecisas.
Ao me referir ao poeta alemão nesta breve apresentação, faço-o para documentar que sua vida como a minha, oscila entre a sombra e a luz.
É tanto que, nos seus últimos instantes de vida, ao se aproximar à morte, ele pediu para abrirem a janela do quarto para que entrasse mais luz, e foi mais ou menos isto que ele disse no seu último suspiro.
A poesia que busco se parece com a alcunha impressa por este poeta, pois sou arrebanhado pela força das existências, onde, neste Flâneur pelos caminhos da poética, mapeio encantos e descrevo com fúria os recantos felizes da minha infância, e as perturbadoras insolências da minha mocidade legadas pela profícua convivência com a diversidade, marcada sempre pelo trágico ato do pensar.
Somos, nós os poetas, seres presos duplamente ao destino das existências de nós mesmos e do tempo em que vivemos; exigindo-nos sempre mais, numa longa e íntima familiaridade com os marcos e os fatos das coisas da vida, ao transpor, com naturalidade, as subjetividades que a sensibilidade evasiva expõe cheia de paridades.
Nestes instantes, torno-me, por necessidade, um fazedor de palavras e ansiedades, como forma de expressão própria.
Esta militância, no entorno da palavra pensada, é que demarcam os meus dias de filósofo no caos de um cosmo tragicamente poluído pelas verdades da existência. Aqui me reservo a percorrer o caminho sem volta da poesia à procura do êxtase que impulsiona a compaixão humana.
Todos os grandes poetas e filósofos viveram em suas buscas existenciais o desenfreado desencanto de uma evolução humana transviada e sem a perspectiva de uma transcendência, que nos dias atuais surge para atribuir à crescente miséria espiritual e intelectual em que mergulha a sociedade contemporânea, margeada pela racionalidade na irrealidade do eterno, do infinito, do necessário, do útil e também do anacrônico.
As angústias encontradas nas palavras deste Noviciado místico que induzem o espírito à rebeldia só refazem a eufórica necessidade de bradar para o mundo os imprites do meu discurso árido e agressivo, entendendo que o maior grito poético do mundo moderno é o grito por liberdade; uma liberdade que lance aos céus do futuro o mesmo clamor de desespero que nos horizontes da agonia e da solidão, um poeta precisa lançar para, misteriosamente, manifestar seu fracasso e sua ascensão diante do misticismo da procura pelo mundo perdido, como a fórmula para transcender à força do destino e perpetrar suas sonolências numa contemplação solitária, para enfim continuar sua dolorosa peregrinação, onde o fardo e a leveza apenas refazem o dilema da insustentável leveza do seu ser.
Assim, é no cerne dessa travessia poética que reluto com as forças do abandono de mim mesmo, fazendo pequenos versos para sedimentar minha linguagem simples e minha intransponível crença de que a poesia que pretendo alcançar jamais abandonará os sentidos da aprendizagem.
Também este escrito o título o denuncia é antes de tudo um repouso para velhas insônias, um feixe de encontros e desencontros, traduzidos pelo esforço para tornar o presente suportável, muitas vezes norteado por inseguranças silenciosas...
O Acadêmico Parte III
Quando me tornei acadêmico, aprendi que o mundo vai muito além dos discursos e dos paradigmas, fazendo-se crer que sua episteme evolui e corrobora para um universo ainda menos conhecido. Tudo isto me foi passado quando amadureci as idéias e me tornei um intelectual mutável, que se aplica aos sentidos dos discursos e empreende saberes em suas ordens.
Acabei por regra do destino, cursando Pedagogia na Universidade Estadual da Bahia, tendo por estes tempos vivido e sofrido muito com a necessidade de me permanecer nas zonas de pertencimentos que a literatura do referido curso me proponha. A simples necessidade de sobreviver naquele que seria minha inserção no universo acadêmico, acabou por transformar a minha vida e ampliar os meus saberes dentro da própria ordem que se ia me apresentando dentro dos saberes formais e já agora, menos subjetivo, porém presos a uma conexão de idéias que acabariam por me levar a uma reflexão mais ampliada.
Por fim, conclui a licenciatura plena, trabalhei algum tempo na área da educação num lugar fantástico, que mais parecia Macondo de Gabriel Garcia Marques em Cem anos de solidão. A experiência me foi recheada de descobertas; pude enfim travar muitas discussões e testar as teorias que havia aprendido na graduação.
O tempo passou e a fome pelo saber também se ampliou, então fiz o vestibular para cursar desta vez um bacharelado em Arqueologia; neste curso me encontro, querendo sempre se saber em permanente aprendizado, querendo viver e sentir a vida passar, na ânsia de um reencontro com as possibilidades da mistura dos saberes da educação com os saberes arqueológicos.
Neste período, ao qual ainda me encontro, a vida tem sido um permanente desafio de léguas; mal havia eu passado no vestibular, perdi minha Mãe para uma doença congênita e abandonei o curso porque as dificuldades emocionais e financeiras também não abandonavam a minha sofrida existência.
Passado um ano e meio, retornei ao curso para me engajar mais por entender que a vida precisa ser enfrentada de frente. Com isto, busquei na permanente solidão de si, uma saída para o total despojamento, mesmo que ainda haja muitos desapontamentos.
A academia me trouxe muitos desassossegos e muitas alegrias, visto que através dela descobri outro sentido para as minhas buscas existenciais e, entre uma pesquisa e outra, uma leitura e outra, vai-se percebendo que há possibilidade de se melhorar para tentar melhorar a realidade que a todos nós circunda.
Hoje mais amadurecido e mais silencioso, tento apenas descrever o que sinto quando sou cobrado a escrever algo que me impele objetividade. A vida tende a nos exigir objetividades.
Neste contexto, não posso deixar de falar dos meus pais; estes poetas iluminados que sempre sonharam em ver seus filhos longe da marginália e com um futuro mais acentuado. Estes, sempre foram exemplos a serem seguidos, tornando-nos pessoas responsáveis.
A luta para nos manter na escola foi árdua, tendo em vista que possuíam seis filhos, e mesmo sendo semi-analfabetos, conseguiram realizar o feito maior de suas sobrevidas que era justamente encaminhar sua prole na retidão dos deveres morais para com a sociedade.
Ao senhor Geraldo Abílio de Farias e a senhora Filomena Farias (In memória) donos de uma sensibilidade grandiosa e de uma força magnânima, devo-lhes tudo que sou; os sonhos, a poesia... a vida.
Portanto, como acadêmico de Arqueologia levo para os meus dias de estudante a certeza de uma continuidade ética porque assim me quis o legado dos meus pais, onde trilharei com reto conceito o que me ensinaram, para já em vida futura e profissional, não decepcionar nem os meus mestres, nem os meus ideais...
Post-scriptum: Para saber mais, consulte os textos relacionados abaixo, que contém parte desta trajetória inglória e sem o calmo pungir de uma poesia calma, feita de fatalidades, numa vida que só foi sofrimento e tormentos...
- FARIAS, Gênesis Naum de. O Encontro marcado com o Século Parte II. In: Diário da Região. Juazeiro BA, ed. de 20/22 de janeiro de 2007, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. O Encontro marcado com o Século Parte I. In: Diário da Região. Juazeiro BA, ed. de 19 de Janeiro de 2007, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. O Século das Angústias. In: Diário da Região. Juazeiro BA, ed. de 09/11 de Dezembro de 2006, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. A Paixão pelo Conhecimento. In: Diário da Região Caderno Dois. Juazeiro BA, ed. de 10 de Julho de 2006, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. Anarquista Graças a Deus. In: Diário da Região. Juazeiro BA, ed. de 09 de Junho de 2006, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. A Arqueologia dos Saberes. In: Diário da Região. Juazeiro BA, ed. de 22 de Novembro de 2005, p.02.