Essa é uma versão dos anos 2006 a 2013 do nosso sistema. Algumas versões mobiles podem não se adptar bem.

 

 
 

 
Publicado em 06/05/2008 - 17:41:51  

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A Universidade Em Estado De Barbárie
 
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“Sempre achei que os anjos possuem a vaidade de se considerarem os únicos sábios. E isso eles o fazem com uma insolência confiante que brota de um raciocínio sistemático.”

William Blake, Poeta Inglês.


*Gênesis Naum de Farias
*Marcos Rangel de Sousa Costa

É incrível como o tempo passa sem que percebamos suas mudanças em nossas vidas. O dia 18 de outubro de 2006 foi marcado pelas comemorações dos dois anos de permanência e criação do curso Arqueologia e Preservação Patrimonial na cidade de São Raimundo Nonato no Sudeste do Piauí. O mesmo faz parte de um dos Campis da Universidade Federal do Vale do São Francisco.

Naqueles dias, houve um esforço coletivo dos nossos colegas de classe para celebrarmos o dia com uma festa; era chegado o momento de falarmos de coisas grandiosas; de saudarmos os deuses com um grande brinde ao som de taças em riste e em estado de muita graça; afinal, comemorações como aquelas perfazem nossos anos nesta universidade.

Foi um dia para perceber o que o poeta francês Charles Baudelaire dizia quando olhava para as cidades que ainda iria conquistar: “A forma de uma cidade muda, infelizmente, mais depressa que o coração de um mortal”.

Na referida noite da festa, lembramos desses versos e fizemos várias reflexões com relação ao tempo de permanência neste curso e na cidade de São Raimundo Nonato. Para este período nos predispomos a dizer que conseguiríamos vencer sua fugacidade porque éramos poetas delirantes.

Outra reflexão contundente para os dias atuais, se remete ao nosso papel como estudantes, futuros intelectuais, convivendo com o marasmo institucional do ensino neste país, salvaguardado pelas crises de poder e pela ausência de debates onde as idéias estivessem sendo formalmente discutidas. Enfim, este é um quadro real de nossas universidades; é fato perceber que a maioria dos alunos não dá conta de uma definição mais ampliada do conjunto de sistemas simbólicos (culturais) que interligam entre si os saberes para formar a estrutura acadêmica, através dos seus discursos e dos seus métodos, porque o sistema é deficitário, a estrutura é inoperante e é pouco provável encontrar nesta estrutura, acadêmicos formados para uma efetiva intervenção social.
Diante do exposto, é fácil pensar na estrutura universitária com o olhar da desconstrução de toda e qualquer forma de enquadramento dialógico, ideológico e coletivo, suas representações sociais e o porquê de não termos muito que comemorar, neste curso amplamente esquecido pela estrutura acadêmica da Universidade Federal do Vale do São Francisco.
Depois de muito tempo, voltamos a este tema para refazer outras críticas e deflagrar outras reflexões, por nos saber membros permanentes desta discussão, porque entendemos que a forma materializa o pensamento; ou seja, a forma escrita-discutida é a própria materialização do pensamento.

Refletindo sobre a educação superior de forma geral, chegamos à conclusão de que falta arte para um cotidiano tão cheio de arte; e a arte da cultura universitária – aquela que se dá pelos corredores – é tudo que representa o pensamento das mudanças em ebulição. Este conceito amplia universos, e sintetiza o que o poeta Cazuza disse: “Brasil, qual é o teu negócio, o nome do teu sócio, confie em mim...”.
Falta afeto, encanto, entrega, compromisso político e diálogo em sala de aula, para transformar alunos medíocres em alunos críticos, inventivos e interventores da realidade; numa permanente interação para se encontrar com o domínio da ciência como compreensão intelectual.

Naquela noite, em que também podíamos comemorar os dois anos da criação da Fundação Universidade Federal do Vale do São Francisco - Univasf; abriu-se mais questionamentos com relação à política pedagógica, e as críticas não achavam sossego porque não era perceptível que houvesse neste curso de Arqueologia uma idéia fomentadora de opiniões críticas que propusesse às mentes uma responsável manutenção dialética dos saberes arqueológicos e universais, envolvendo cientistas, mestres e alunos.
Chegou-se a conclusão de que era preciso mais humanidade para se efetivar a troca de saberes e que era preciso abrir-se a inventividade de uma outra compreensão do que é explicitado como conhecimento partilhado, maturado e discutido em sala de aula. Chegou-se a qualificar o cientista, dentro de uma lógica qualitativa, como um artista – ele deveria se portar como um artesão – para fugir das aparências e se converter sempre em essência, a uma troca de saberes audaciosa, corajosa, prudente e sensível a tudo e a todos. É através dessa erudição que a classe trabalhadora dos professores encontrarão os meios eficazes para se chegar às novas interpretações para um cotidiano escolar que lhes cobra afeto, prazer, saberes críticos e transformações. Arnaldo Antunes sentencia esta pedagogia do terror dizendo: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”.

Três anos e sete meses se passaram, a primeira turma do curso de Arqueologia e Preservação Patrimonial está prestes a se formar e a decepção ainda se configura porque a culpa talvez não seja de todos os nossos mestres. A culpa é da própria Universidade Federal do Vale do São Francisco, através de suas prioridades básicas.
A sensação de esquecimento por parte dos alunos do curso é intensamente presente, porque nos encontramos em uma situação de esquecimento total e entregues à própria sorte.

A propósito, o curso de Arqueologia foi pensado e criado para dar vazão a uma ciência nova que teria tudo para dar uma maior visibilidade a esta congregação de ensino, da qual fazemos parte e que é um curso belíssimo, mas as respostas que procuramos no passado ainda convivem com nossas incertezas porque nossa estrutura acadêmica só não é tão deficitária porque utilizamos da boa vontade de outros órgãos públicos que nos garantem segurança e espaço de laboratórios para o permanente estudo deste mesmo passado pré-histórico.

O argumento maior para o esquecimento era o fato de o curso estar atrelado às dependências da Fundação do Homem Americano, presidida pela professora Niède Guidon, que disponibilizava o espaço público da referida Fundação para abrigar o referido curso. Isso não justifica priorizar os Campis de Juazeiro e Petrolina com a devida assistência pedagógica e funcional, simplesmente porque estamos distantes da mídia e dos grandes centros. É preciso rapidez e seriedade para a conclusão do Campus Serra da Capivara, bem como nas suas dependências, toda a infra-estrutura que vem sendo oferecido aos alunos de Petrolina e Juazeiro.

O argumento de que os alunos do curso de arqueologia já possuem certa estruturação de laboratórios só serve para tornar o esquecimento ainda maior, tendo em vista que nossos colegas, professores e alunos, estão entregues a própria sorte.
Falta uma atenção mais contundente por parte da Reitoria em atentar-se para os problemas do Campus Serra da Capivara, que estando distante de Petrolina quase 400 km sofre as conseqüências da meritocracia funcional das nossas universidades, encasteladas num cientificismo indulgente que beira uma vaga noção ditatorial e, neste caso, a ditadura é fomentada pela excêntrica noção de relatividade. Por isso clamamos pelo fim da ditadura da relatividade e por um maior estreitamento nas relações comunicativas entre Reitoria e Corpo Discente do referido Campis.

Queremos assistência pedagógica, queremos rapidez na construção do centro de pesquisa e uma melhor atenção quanto aos problemas enfrentados pelos alunos no seu cotidiano escolar com relação a viagens de qualificação formativa para congressos e, principalmente, a integração entre os Campis.
O que diferencia esse processo é a própria noção de agenciamento e prioridade, empreendida pelo órgão que assim nos representa na instância da Reitoria, ou melhor, ausência de agência e de agentes que garantam uma política universitária amplamente regulamentada. Essa indiferença nós queremos discutir em outros fóruns; queremos conversar com o Reitor, queremos ouvir as propostas dos Pró-reitores, queremos saber quais são os projetos direcionados ao Campus Serra da Capivara com a possível Reforma Universitária, queremos discutir a política de bolsas cientificas e queremos discutir a inclusão deste universo acadêmico no cenário maior desta universidade. Enfim, “pra ver quem paga pra gente ficar assim”.

É preciso alavancar a esperança, que em nós alunos já está quase morta, para frearmos esse contexto de estagnação e desrespeito institucional.
Sempre proclamamos que universidade não se faz somente de paredes e concreto armado; universidade se constrói com idéias e participação coletiva; me intriga saber que neste universo de saberes, os alunos só consigam perceber através do deslumbramento com a estrutura física e com o status do fazer parte de uma instituição de ensino federalizada.

É preciso se angustiar com esse estado de coisas porque é fácil perceber nos olhos dos nossos futuros cientistas o empobrecimento deste país que continua assolado por corrupções, miséria intelectual e desordem política.

Embora haja uma indústria acadêmica neste país, que se faz pela ciência autocrática e factual, não podemos cruzar os braços em achar que o processo formativo não passa pela reflexão e pelo amadurecimento das nossas próprias idéias. Cada vez mais o mercado de trabalho exige profissionais com competências mais flexíveis, com mais criatividade e capacidade para um trabalho grupal que por si só exige intuição. Chega de repetir fórmulas, repetir testes para uma sociedade que exige inovação permanente.

É hora de procurarmos, todos juntos, uma fórmula para as razões desse descompasso, que tem origem direta no processo das aprendizagens.

Afinal, o que é a escola neste cenário? Ela deveria ser um espaço de curiosidade, e o professor seria um administrador dessas curiosidades. Essa relevância diante do conhecimento se dá pela atitude de mudar os conceitos pela atividade crítica de luta e de inovação, na exploração dos significados.

Essa é a educação que queremos para o Campus Serra da Capivara e para os demais centros de ensino superior, tanto desta universidade quanto das outras universidades deste Brasil que tanto clama por uma nova ordem, integradora de pessoas e tecnologia; e a educação como prioridade pode restabelecer essa esperança e esse prazer pelo aprender.

Só assim poderemos reverenciar o universo e propagarmos que fazemos parte de uma educação séria e de qualidade.

O jornalista Gilberto Dimenstein focaliza que a humildade do aprendizado é o maior presente que cada um dá a si mesmo, porque a base dos grandes homens não está somente no conhecimento, mas na paixão pelo descobrir. Finda-se aqui mais uma página de nossas vidas públicas …


*Poetas e Acadêmicos de Arqueologia e Preservação Patrimonial

Universidade Federal do Vale do São Francisco – Univasf

Campus Serra da Capivara

São Raimundo Nonato/PI