Gênesis Naum de Farias
Poeta e Acadêmico da Faculdade de Arqueologia
Universidade Federal do Vale do São Francisco UNIVASF
Campus Serra da Capivara/PI
e-mail: cabarebruxelesco@yahoo.com.br
A chama isolada das velas é testemunha de
uma solidão, solidão essa que une
a chama e o sonhador...
Gaston Bachelard
Para quem sonha com descobertas de múmias e construções subterrâneas, a Arqueologia é uma ciência que proporciona remontar os fragmentos da historia para eventualmente se conhecer antigas culturas através de sinais por elas deixados.
O conceito central que deve ser retirado aqui é a idéia de materialidade, intrínseca aos objetos encontrados nos sítios arqueológicos. Com efeito,
a arqueologia vale-se das evidencias materiais da existência de um povo, cultura ou civilização para explicar seu surgimento, evolução, apogeu e eventual extinção. (Soleto, 2003, p. 13).
O cotidiano do arqueólogo se faz através do seu trabalho de campo na busca dos fragmentos culturais e sua materialidade. Ora localizando ruínas de antigas civilizações, ora descobrindo objetos petrificados, cacos de cerâmica, utensílios, inscrições, monumentos e edificações.
Para os mais desavisados, o trabalho do arqueólogo é exatamente procurar sinais da vida e costumes de povos desaparecidos. Para tanto, ele explora cavernas, florestas e o subsolo de cidades modernas.
Quem não lembra as personagens da literatura mundial que impulsionaram o sonho de encontrar civilizações perdidas. Podemos enumerar as mais famosas, transpondo suas identidades para a vida real por serem personalidades que se transformaram em lendas de outros séculos, incendiando a imaginação de escritores como Conan Doyle e H. Rider Haggard, alem de centenas de aventureiros que se lançaram no mundo na tentativa de desvendar diversos mistérios envolvendo a historia da humanidade.
Doyle escreveu o
Mundo Perdido e este foi o livro que mais despertou nos aventureiros os sentidos de suas buscas existenciais. Muitos como Julio Verne, beberam nesta fonte primorosa. Outro personagem que se confunde com a vida de quem o criou é o famoso arqueólogo Alain Quarteman de H. Rider Haggard que se encontra no famoso livro
As minas do rei Salomão. Este famoso arqueólogo caçava tesouros antigos na África, acabando por se tornar o protótipo mais fiel do arqueólogo moderno, tanto no seu aspecto estético quanto no seu aspecto espiritual. Os críticos falam que a personagem das minas do rei Salomão era o próprio H Rider Haggard.
Neste aporte literário, muitos sonhadores saíram para desvendar seus próprios sonhos, tornando-se verdadeiros heróis enigmáticos em todo o mundo. Um deles foi Heinrich Schliemann, que confundiu a própria historia com a ficção e acabou por se tornar um dos maiores arqueólogo de todos os tempos ao iniciar uma incrível aventura em busca da antiga cidade grega de Tróia. É evidente que todas as citadas personalidades beberam na fonte do grande Homero com sua
Ilíada.
O Brasil também foi cenário de admirável incursão pela aventura arqueológica com o famoso explorador inglês Percy Harrison Fawcett, que desapareceu na Amazônia em 1925, enquanto buscava na selva uma civilização perdida originária da Atlântida. O enigma de Fawcett se transformou numa das maiores lendas do espírito aventureiro dos brasileiros, pois através de varias expedições financiadas pelo governo desta nação, se tentou achar seu corpo no alto Xingu. (Leal, 2007).
Os enigmas se sucedem e faz da complexa formação do arqueólogo uma grande colcha de retalhos, porque escavar sítios arqueológicos costuma ser uma das atividades mais interessantes da profissão. Durante as escavações, o arqueólogo segue os procedimentos de separar os achados que podem ser peças de uso doméstico, enfeites, armas, ossos. O processo é técnico, mas também requer capacidade intelectual e exige do profissional conhecimento
multireferenciais, objetivando um trabalho interdisciplinar que depende dos saberes de outras áreas, tais como direito ambiental, biologia, diplomacia, geofísica, geologia, filosofia, geografia, historia, antropologia, museologia e psicologia social. Depois em laboratório, aplicam-se os estudos direcionados para descobrir a época em que os artefatos foram feitos, identificando espécies e utensílios ─; documentos estes que vão ser acondicionados em museus servindo como explicação para os relatos históricos que compõe os dados recolhidos nas escavações.
No campo profissional o arqueólogo pode trabalhar na fiscalização do patrimônio cultural (impedindo desmatamentos e escavações clandestinas para garantir sua integridade patrimonial); em pesquisas (estudando e classificando material arqueológico para reconstruir os costumes de antigas civilizações); no salvamento arqueológico (identificando locais para novas escavações, orientando escavações, recolhendo e utilizando materiais encontrados em sítios arqueológicos ou em áreas ameaçadas de destruição). (Guia do Estudante, 2008).
As particularidades da ciência arqueológicas são muitas e, se destacam com as seguintes nomenclaturas: Arqueologia Clássica, Bíblica, Pré-histórica, Histórica, Arqueologia de Gênero, Arqueologia Pública, Subaquática, Arqueologia do Lixo, da Violência, do Capitalismo, Arqueologia da Paisagem, Arqueologia Espacial e Arqueologia das Práticas Mortuárias. O filósofo Michel Foucault diria que a ciência em questão é a principal ferramenta para interpretar a produção dos discursos culturais, e sentenciaria dizendo que arqueologia é tudo.
Outra área que tem trabalho a pleno vapor são os estudos de impacto ambiental, ou seja, através da arqueologia de contrato. O
Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) através resolução 001/96 determina a elaboração de estudos de impacto ambiental quando grandes obras de infra-estrutura são exigidas para promover o desenvolvimento regional. Neste caso, é importante a função dos arqueólogos para o levantamento arqueológico buscando uma melhor compreensão da área a ser trabalhada e seus possíveis danos ambientais.
Portanto, falar dos enigmas da Arqueologia é também falar da árdua missão de
escavar pessoas e não coisas como afirmou um grande cientista do passado. É também falar de compromisso social, procurando entender qual a relação entre presente e passado, questionando sempre sobre o papel do arqueólogo na elaboração do conhecimento, quais seus compromissos, deveres e quais suas responsabilidades. (Klaus, 2006). Enfim, além da pesquisa, o arqueólogo deve elaborar para si uma espécie romantismo existencial, procurando ser ético frente às inter-relações desafiadoras que afligem o planeta, pensando no passado à reconstituição dos caminhos que levaram o homem
sapiens em sua evolução.
Referências Bibliográficas
FOUCAULT, Michel.
A arqueologia do saber. ─ 7. ed. ─ Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
GUIA DO ESTUDANTE. São Paulo: Editora Abril, 2008.
LEAL, Hermes.
O verdadeiro Indiana Jones: O enigma do Coronel Fawcett.─ 4. ed. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2007.
HILBERT, Klaus.
Qual o compromisso social do arqueólogo brasileiro?. In: Revista de Arqueologia/ Sociedade de Arqueologia Brasileira ─ nº. 19 (2006) ─São Paulo: SAB. P.89/101.
SOTELO, Daniel.
Arqueologia Bíblica. São Paulo: Editora Cristã Novo Século, 2003.