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Publicado em 09/02/2009 - 17:42:11  

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Por uma Arqueologia Pública
 
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Gênesis Naum de Farias

Poeta e Acadêmico da Faculdade de Arqueologia

Universidade Federal do Vale do São Francisco – UNIVASF

Campus Serra da Capivara/PI

e-mail: cabarebruxelesco@yahoo.com.br




FUNARI, Pedro Paulo. Arqueologia/ Pedro Paulo Funari. — São Paulo: Contexto, 2003.

Palavras-Chave: Arqueologia, História, Pré-história, Epistemologia, Teoria Arqueológica.



“Não creia nesse cavalo. Seja ele o que for, temo os gregos, mesmo quando dão presentes.”

Eneida, Virgílio, 20 a.C.



A obra que recebe o título desta resenha — Já se configura como uma obra-prima do manancial didático-teórico da nova ciência histórica e pré-histórica: Arqueologia.

Pedro Paulo Funari é doutor em Arqueologia e professor da Unicamp. Como pesquisador, tem dado sua contribuição a ciência brasileira através da produção de livros didáticos que tendem a converter leitores em iniciantes cientistas, devido à facilidade com que escreve na prosa poética da ciência arqueológica, ou sobre a ciência e os conhecimentos sobre o mundo e suas histórias.

Arqueologia é um desses livros cujo maior fascínio é a objetividade. Desde muito cedo o seu autor acalentou o projeto de compor uma obra onde pudesse representar a ciência arqueológica como uma ciência reveladora, romântica, didática, crítica e principalmente imbricada pela pluralidade da epistemologia. O objetivo era tornar público um conhecimento que viesse a servir como ferramenta de aprofundamento nos trabalhos dos novos arqueólogos e cientistas que quisessem conhecer a História da Arqueologia como ciência, que se materializa quando se preocupa com os artefatos da cultura material dos povos do passado.

Ao longo do texto, Funari dialoga com o tema, que se adapta ao seu talento na ambição de propor uma visão particular da história da arqueologia no contexto da ciência brasileira; primeiro descaracterizando a visão romântica e cinematográfica da ciência em estudo; segundo, abreviando o papel social desta ciência que se junta as outras para somar conhecimentos na construção de uma outra forma de se pensar à ciência no Brasil. Em seguida, o autor apresenta os pressupostos político-filosóficos da Arqueologia como ciência, elencando sua importância para outras áreas do conhecimento; seu poder e suas formas de se fazer como ciência através da pesquisa hipotético-dedutiva, para determinar sua ação e sua atuação frente às novas interpretações do papel social da história no contexto da evolução da espécie humana.

No entanto, o que deveria ser uma pequena enunciação dos novos temas, tornou-se uma pequena obra-prima da literatura cientifica, povoada por reflexões contemplativas do poder que o arqueólogo tem como construtor de uma explicação e interpretação do passado ou de sua história evolutiva na espécie humana. Em meio a esse complexo paradoxo, os pressupostos do livro servem para questionar a própria condição do arqueólogo como cientista, abreviando na página 109: “... Tornar-se arqueólogo também implica reconhecer que esta ciência tem sido muitas vezes reacionária, cultuando explicitamente as elites ou explorando populações em benefício nada científico e puramente monetário, como é o caso de certas atividades de campo financiadas por grandes empresas. (...)”.

O centro da obra é a busca por uma definição da ciência arqueológica como ferramenta intransponível para se desvendar um passado distante dentro de uma abordagem romântica, que leve pesquisador e leigos ao deleite intelectual de uma epistemologia que veio para ficar e para definir conceitos junto a outras ciências de cunho teórico e pratico, porém com um poder de abstração e interpretação, compreensão e adequação à realidade dos fatos, fora de sério.

A visão híbrida dos fatos, a torna uma fonte eloqüente no campo humano deste mosaico de crises, espanto e fuga de consciência. O livro abrevia o papel social da História como parceira da Arqueologia, assim como de várias outras ciências, trazendo discussões que formatam prefixos para concluir que a história dos povos não é fixa. Nisto, o autor apresenta um capítulo especial para refestelar o leitor com uma problemática, “como pensa o arqueólogo: do Artefato à sociedade”. Neste capítulo uma máxima chama a atenção quando diz “(...) o arqueólogo logo define os estratos, com certa dose de subjetividade, mas sempre baseado no que se encontra no solo. (...)”. Assim, se observa que o arqueólogo terá que se irmanar de um senso de observação apurado para conseguir, de forma ética, levantar pressupostos, hipóteses e conjecturas, fazendo-as manter uma relação de continuidade sistemática entre as sociedades do passado com as sociedades contemporâneas e seus dilemas.

Portanto, Funari sugere – como propostas para esse livro – não a permanência de um manual arqueológico, mas um compêndio que sirva para formular conceitos e críticas diante do que se anuncia didaticamente como um grande livro para se introduzir um conhecimento complexo como o da ciência arqueológica. Basta agora que o leitor passeie com o autor pelos processos que determinaram seus relatos sobre o Homem, compondo um universo conceitual responsável pela reconstrução do saber de uma espécie que pensa, que refaz conceitos, que evolui e que desmaterializa sua cultura diante da própria evolução cultural ao qual estão submetidas por uma cadeia de evolução, própria da interação do mesmo com a paisagem e, toda essa discussão se resume e se fecha numa única palavra: Adaptação. Este conceito no livro amplia o universo simbólico, define o senso estético, caracteriza o poder da aquisição do conhecimento e propaga outras estruturações dialógicas para a fenomenologia, como funcionamento interno dos sistemas de representação social.