Gênesis Naum de Farias
Poeta e Acadêmico da Faculdade de Arqueologia
Universidade Federal do Vale do São Francisco UNIVASF
Campus Serra da Capivara/PI
e-mail: cabarebruxelesco@yahoo.com.br
As circunstâncias fizeram de mim mais do que um simples
bode expiatório. Ao defender os estudantes da tirania do sistema universitário ao qual estou já há muito tempo inserido, feri a própria vaidade dos meus mestres e ampliei a própria liberdade de expressão, condição primeira da formação educacional que defendemos enquanto
Movimento Estudantil.
Triste é saber-se pertencentemente de um curso que possui uma ementa que tiranizou durante esses últimos quatro anos, fazendo-se um texto lido sem possibilitar a encenação do diálogo ─ anseio de todos. O lugar natural da vida acadêmica é o lugar do conflito; para tanto é preciso sabedoria, prudência, tolerância e experiência administrativa. O lugar do conflito sala de aula é onde as personagens assumem a verdadeira dimensão quando em contato com os saberes simbólicos, a dialética e a vontade de participar de um curso de Arqueologia prático, reflexivo, crítico e que atenda através do compromisso político de quem os ensina, às demandas e anseios de toda uma coletividade. Sem esta proposta nenhum aluno pode realmente avaliar a eficácia da própria formação para corrigir-lhe as eventuais falhas e se permitir a uma evolução. Fica fatalmente condenado à estagnação.
Que dizer de meus colegas que interromperam um sonho, ou de toda uma geração de sonhadores, que se vêem paulatinamente impedidos de levar a termo seus projetos, uma vez que essa complementação especial ─ a formação acadêmica séria ─ lhes é vedada? O que pensarão as gerações futuras da Arqueologia da Serra da Capivara sufocada no nascedouro, quando não obrigada a recorrer a uma formação séria, obrigam muitos a pagarem o preço de uma educação fraudulenta.
Eu sou um indivíduo que não capitula com a obstinação típica daqueles que não têm compromisso; ao contrário, nesta última carta, quero dizer-lhes que tenho certeza de minha missão, pois
desassombradamente bato sempre na mesma tecla, de que sou representante de mim mesmo ─; por isso me rotulam de esquizofrênico, psicopata, louco. Talvez até seja tudo isso, porém sou verdadeiro e, sempre faço as coisas movido pelo mais alto sentido de solidariedade humana, e com as armas de um talento ímpar.
Às vezes, as minhas palavras e as minhas atitudes são libelos contra as injustiças socioeducacionais visando à conscientização do coletivo ─; se é que alguém quer ou precisa de consciência.
Sinto-me responsável por tudo que nos aconteceu aqui no Campus Serra da Capivara, mas já era tempo de evidenciar os erros para se chegar aos acertos e ao equilíbrio. Nossos mestres nunca objetivaram o diálogo e, onde não há comunhão há tirania, e os alunos resolveram abandonar a posição cômoda e egoísta do silenciar-se a tudo.
O que se fez está longe de um atentado à moral e aos bons costumes; nossas ações estudantis são bisturis que abre um câncer e traz à luz as verdadeiras causas da perpetuação de situações atentatórias a nossa própria moral estudantil.
O que se elucida nos documentos produzidos pela Comissão Estudantil, são situações que existem desde sempre e não é escondendo-as que as sanearemos.
Quanto aos autores das ações de tiranias, condoídos com a situação dos desvalidos alunos, é bom que busquem no diálogo soluções para retratar com tons de retoques todo o desgaste institucional criados com a situação das últimas semanas. Contudo, não podemos ser agradáveis, visto que somos retaliados, perseguidos, acusados de situações que não participamos e somos vítimas no cotidiano da sala de aula da crueza dessas situações que denunciamos, ─ são tão chocantes quanto à realidade que elas espelham.
Para muitos, o fato do meu descontrole emocional, criou um mal-estar sem limite, mas essa é a única via que me permitiu dar vazão ao que esperava de um Colegiado um tanto quanto pouco democrático.
Professores, triste é o país que tem medo de
encarar de frente a realidade triste de nossa educação; no que tange a nossa Faculdade de Arqueologia é triste vê-la proibindo seus estudantes de sonharem, de proclamarem suas queixas na ânsia de solução para problemas tão significantes e fáceis de se resolverem. Quanto a nós que nos fizemos corajosos, basta captar a essência da verdade daquilo que vivemos, em revelar ao mundo a arte de nossa luta por mais democracia no Ensino Superior. Muitos alunos foram embora abandonando o curso; alunos referenciais como Gabriel, Tobias, Leonel (in memorian) e tantos outros que vêem seus sonhos sendo tratados como coisas sem valor por não haver compromisso educacional e vontade política e profissional para encarar o processo da formação como algo relevante para a construção do pensamento crítico ─ ; somos os protagonistas de uma tragédia da mais objeta degradação moral e nossa revolta nos invade de uma enorme tristeza ─, creio que é urgente perguntar a quem de direito: ─ Por que tentam calar o Movimento Estudantil? Aspectos estéticos à parte ─ ninguém põe em dúvida o valor das denúncias feitas publicamente ─, Qual a lógica de se querer esconder do público o conhecimento de uma verdade que ninguém ignora?
Creio que a chave desse enigma está justamente na raiz da falta de maturidade profissional do referido Colegiado: o desequilíbrio emocional de alguns mostra a falta de preparo político para tratar com resoluções normalmente consideradas frutos de toda uma tirania que ortoga o próprio curso de Arqueologia e Preservação Patrimonial na cidade de São Raimundo Nonato. E ao responder a muitas críticas que me ultraja de psicopata, neuróticos, esquizofrênico e outras tantos termos, que me servem para ultrajar minha própria personalidade de luta, lanço ao ar um desafio imenso à nossa obrigação moral e cívica como cidadãos de tratar as críticas como tal porque essa é a intenção de quem as pruduz: tirar a atenção dos fatos que seguem como denúncias públicas. Isto implica em reavaliarmos enquanto alunos toda uma estrutura social e o compromisso de transformação que cada estrutura possui, sem no nosso imediatismo questionar o papel da luta que gira em prol de um coletivo cada vez mais tomado pela cegueira das vaidades, que no nosso imediatismo não interessa questionar, que à nossa inércia de cegos do castelo não interessa abalar, que à nossa covardia não interessa denunciar.
É por tudo isso Professores que lhes escrevo neste dia de profunda reflexão, para lhes anunciar que meus sonhos nesse castelo de ilusões ruíram; eu que sempre me dediquei ao curso hoje sou vítima de injúrias, discursos terroristas, fruto de muitos incompetentes, quero lhes dizer que saio dessa história com a cabeça erguida, querendo mais uma vez afirmar que não sou lunático, sou apenas um poeta delirante, apaixonado, encantado e, agora mais feliz, pois que vou partir para o meu mais nobre silêncio interior...
Foi um enorme prazer de minha parte poder documentar relativamente o que fui, o que sou, o que talvez nem serei. Eu me orgulho de ter sido contemporâneo de um tempo e ter sonhado com uma Arqueologia no sertão como muitos já sonharam. Jamais esquecerei que um dia partilhei minhas intensas angústias com este mesmo tempo, mas o presente me diz que não nasci para a Arqueologia, apesar de me saber pertencente, porque ela já está dentro do meu coração de Poeta. Adeus que vou partir sabedor que
não sou escravo de ninguém, ninguém senhor dos meus domínios....