Essa é uma versão dos anos 2006 a 2013 do nosso sistema. Algumas versões mobiles podem não se adptar bem.

 

 
 

 
Publicado em 24/03/2008 - 18:35:25  

Tamanho da fonte:..

 

 

 
A volta da coluna literária CABARÉ BRUXULESCO HALL
 
.
 
 
Caros Leitores,

Estamos de volta com a coluna literária da cidade de São Raimundo Nonato, intitulada Cabaré Bruxulesco Hall, de fomento poético. O colunista que segue é o Poeta Gênesis Naum de Farias, aluno da Academia de Arqueologia e Preservação do Patrimônio na Universidade Federal do Vale do São Francisco - UNIVASF/ Campus São Raimundo Nonato.



Carta a Um Jovem Escritor


*Gênesis Naum de Farias



O despertar de um novo escritor se completa quando os sentidos de sua existência atentam-se para as fronteiras do seu interior, numa intensa repulsa marcada pelas sagas e lendas de suas experiências com a solidão.

Esse despertar demarca a sua existência transferindo forças para a grande viagem do conhecimento rumo aos grandes mistérios criados pela realidade.

É neste momento que o labor da escrita norteia a vida de quem se entrega a essa mistura de sentimentos valorizada pela autocrítica. E o auto-conhecimento influência o dissipar sintomático para certa liberdade, conquistada pela coragem de se fazer habitado por muitos mundos.

Neste contexto, o fabulista conjuga a natureza de forma reveladora, para materializar o trágico e o belo no desenrolar de um sofrimento solitário, que ao mesmo tempo é sóbrio e envolvente na contemplação das tristezas do mundo.

Esse universo se reúne através da crença nas idéias; entre elas, o poder de sintonia segue colhendo entusiasmos através da introspectiva noção do criar. Afinal, o universo literário segue a ordem vital na coerência de se mostrar deslumbrante, fantástico, mágico.

Impressionei-me ao ver toda esta solidão nas personagens do livro do jovem escritor Orestes Jayme Mega; pois vem do próprio punho tal confirmação; seja ela através das letras, seja na idealização dos desenhos dos contos, na estrutura do livro, seja na certeza de um trabalho com a emoção.

E, agora, sobre a própria condição do escritor: é preciso submetê-lo a vivencia, para de certa forma, ser testado, esperenciado e sepultado o homem velho. Esse processo requer solidão, paciência e humildade. Orestes deverá compreender esse caminho para que ressurja do obscuro uma expressão indizível, firme e amadurecida no encontro dos mundos; ora habitado pela incompreensão, ora habitado pelo silêncio.

Em Um Quarto Escuro Para Catarina e Outras Histórias, está presente intensamente o sentimento da ternura, do recolhimento e do reconhecimento mútuo, revelando a fragilidade infinita do ser humano.

Parece um tanto contraditório que o autor se saiba anárquico quando suas potencialidades evidenciam outras virtudes, ao se referenciar com as significações da criação para re-inventar os motivos de suas reflexões se deparando com o profano e o infinitamente horrível da realidade, fazendo tudo isso coincidir para uma mesma órbita de elegância dada aos personagens, onde a tortura e o assombro margeiam a aflição, a crueldade e os infortúnios do sofrimento humano.

São estes os elementos descobertos nas histórias deste novo iniciado na literatura que precisam ser percebidas ao longo de sua leitura, como estigmas centrais nos descaminhos a serem enfrentados rumo à consolidação da palavra escrita.

Cabe ao próprio Orestes, a partir de agora, dialogar consigo mesmo para saber empreender novos rumos a sua descoberta poética; onde a percepção do humano possa lhe dar vazão à sinergia da humildade, quando a busca pessoal pela integridade lhe assegurar íntima convicção do livre-pensamento, ficando clara suas imperfeições, desejos e suas futuras odisséias nesta nau que o transporta para uma longa viagem pelo tempo e, que sejam plenos as suas vontades...

*Poeta Bruxulesco,

Membro da Academia de Arqueologia e Preservação Patrimonial

Universidade Federal do Vale do São Franciosco – Univasf

Campus Serra da Capivara

São Raimundo Nonato/PI




Catedral de São Raimundo Nonato/Oléo sobre eucatex. Gênesis Naum de Farias




Um poema para elevar a chama dos desencontros tardios e homenagear a Panificadora Saraiva...


Boulevard du Saraiva


Habituei-me em teu silencioso espírito
feito um naufrágo solitário
contido na oração dos ventos,
como um faroleiro isolado
na mais profunda solidão.

Em suas tardes quentes e taciturnas
calei o tormento humano,
vivi entre fulgores orquestrais
definhando volúpias
impregnadas de vibrações dolorosas.

Nas noites de obscuras vertigens,
a tristeza aflorava o baile dos delírios;
sob um céu inflamado e virgem
vogava nossos corações noturnos
saciando-lhe a fome com o deleite dos pães.

Sem dúvida, somos testemunhas
dos soluços da cidadela
diante da quimérica eternidade ausente,
no infinito ir e vir do mundo
inspirando no ermo, o cantar das existências.


Post-scriptum:

Este Poema se reporta ao local de encontros literários para um bom bate-papo no fim do dia na cidade de São Raimundo Nonato, onde criou-se o hábito de tomar tomar leite todas as tardes... O local é a Panificadora Saraiva na Praça do Forúm.