Gênesis Naum de Farias
Poeta e Acadêmico da Faculdade de Arqueologia
Universidade Federal do Vale do São Francisco UNIVASF
Campus Serra da Capivara/PI
e-mail: cabarebruxelesco@yahoo.com.br
Brasil & O Trabalhador De Celestino Gomes, Petrolina, Pernambuco
Na noite do falecimento total da existência do artista plástico e cidadão Petrolinense, Celestino Gomes, o céu se umedeceu e transbordou em lágrimas. Há muito ninguém o via passeando no passadiço da citadinha; a beira do Velho Rio sua morada jeitosa, para onde queria ser levado. Era um pedido longínquo.
A sua vida de marinheiro, boêmio e poeta, havia deixado-o ressacado com os fatos do cotidiano, preferindo o isolamento sucinto nas plagas da Ilha do silêncio; na torre do seu castelo de sonhos, ilusões, devaneios e lutas infindáveis para escapar da solidão.
O continente só ficou sabendo de sua triste partida porque os ventos do norte trouxeram mensagens da ilha, onde não mais os corcéis poderiam habitar por falta de proteção. Era a partida de um Mito, que por toda a vida logrou pelas águas da existência na labuta contra o isolamento, chegando mesmo a ver caravelas onde só havia o desolado vai e vem das ondas que o abrigavam na sua lida de Almirante.
Seu último pedido foi que o enterrassem com sua magnífica espada numa encosta da ilha; perto do rio longe de todos Era um grande Poeta!
O próprio dizia que no continente só possuía dois amigos: um Deputado para as suas confissões infernais, e um excêntrico Poeta; para os bordejos matinais na boêmia gostosa do cais, na companhia solitária dos seus silenciosos encontros com o fim da tarde. Na verdade nunca houve silêncio nestes encontros, pois ambos pensavam a vida e, entre becos e esquinas, seus pensamentos acabavam parados na
Rua da Esperança num velho cabaré conhecido como Porto Bello. Era assim a sua vida no continente.
Sua existência fora uma grande e tumultuosa lenda, gerada a partir de aflições momentâneas e inquietações latentes. Enterrou vidas e viveu o tempo suficiente para sofrer sete solidões e se maldizer do que viu e viveu nestes longos anos de silêncio. Era como se uma ordem secular partisse e deixasse o sentimento de ameaça tomar conta da vida dos seus contemporâneos. Muitos diziam que o mesmo não fazia parte deste universo, sendo uma transição que muitos queriam que partisse logo, para fazer-se esquecer o que um dia fora dito de sua boca ; profecias malditas que afetaram os brios católicos da província mestiça com ares de nobreza, mas com traquejos de uma sociedade sem tradição nas idéias.
Poucos foram os que puderam contemplá-lo nestes últimos anos em que sua intransigente irreverência celebrava conflitos e aparições ilusórias, mas que alimentavam sua efêmera imaginação para o devaneio sombrio dos mares. Como se costumava dizer; - Era um Mito.
O lema de sua existência sempre fora à totalidade da vida em sua total parcialidade; era um rebelde inquieto que sonhava com um mundo liberto de tiranias.
Neste instante se saúda sua memória, arrastando pesares cerimoniosos sob o olhar crítico de uma espécie de pensador anarquista que olhava a todos como se tivesse pagado para ver um espetáculo.
Ao morrer deixou um inventário poético em obras de arte e dois livros, que desejava dia serem lido como o breviário de sua lucidez para afirmar sua condição de filósofo de um caos íntimo numa era planetária, onde o ser não tem espaço diante do nada niilista da sociedade do espetáculo, da especulação digital e da imensurável frieza nas relações humanas.
Falarão no futuro que as almas dos homens perdidos sobre um abismo e em contato com a imensidade, ficam abandonadas a todos os excessos do heroísmo, da loucura ou do horror. Evidentemente, que sua conduta jamais será submetida à prova de uma horrenda força diabólica, visto que a realeza dos seus ideais será nitidamente vista como algo que transcendeu o isolamento mais absoluto e fora capaz de esperançar, viver e lutar pelas causas mais nobres que padecia a humanidade.
Sua elegância tornava o funeral um tanto quanto sinistro; Sua companheira de sempre a solidão estava lá, ao lado de um cão em silencio contemplando uma nova perspectiva sobre a alma do féretro montavam guarda como negros corvos.
Havia uma confissão latente de que não gostaria de morrer com terrores suplementares, mas tranquilamente, numa espécie de sonho sereno.
Parafraseando os escritos do inglês Joseph Conrad,
certa aptidão para a morte não é coisa tão rara, mas o que é raro é encontrar homens cujo coração, revestido de uma impenetrável armadura, esteja pronto para conduzir até o fim uma batalha perdida. Só os que lutam contra forças brutais conhecem bem esse desejo; homens que em suas buscas existenciais enfrentaram as cegas potências da natureza ou a brutalidade estúpida das multidões.