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Publicado em
09/10/2008 - 11:19:30
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Aluno da ousadia e teimosia
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Dizem que a educação vem do berço, mas a minha não veio de lá, mesmo porque eu nunca tive berço. Enquanto criança, eu dormia numa rede remendada, desde bebê. A pouca educação que tenho veio da minha genética.
Isso mesmo! Herdei a teimosia do meu pai e a ousadia de minha mãe e esses dois adjetivos me ensinaram tudo que nada sei hoje.
Quando eu tinha aproximadamente dez anos de idade, descobri que sofria de uma doença que mais tarde me levaria a essa cadeira de rodas que utilizo hoje. Isso poderia ter me desestimulado a viver e a lutar, me fazendo desde já, ir me acostumando a viver quieto no canto da sociedade, destinado à pessoa com deficiência, principalmente naquele tempo, em que o preconceito era ainda mais acentuado. Mas um ousado e teimoso feito eu, não aceitaria isso.
Atrevi-me a sonhar em estudar sempre e pirracei em superar todos os obstáculos que se impunham a meu intento. O preço por isso não foi barato, mas paguei (e ainda pago) diariamente, pois os referidos adjetivos morrerão comigo. Se morrerem!
Desde os meus tempos de ginásio que eu já ia para a escola aos trancos e barrancos, mas desistir sempre esteve fora de cogitação. Quando eu cursava a sétima série do ensino fundamental, eu ainda ia para o colégio caminhando, mas já andava muito mal.
Lembro que os outros alunos faziam o trajeto de casa até o referido estabelecimento de ensino em quinze minutos e eu demorava o dobro de tempo para fazer o mesmo trajeto, porém sempre dava um jeitinho. Quando eu já não conseguia mais ir caminhando, ia de bicicleta, depois levado por minha irmã, em seguida pelo meu pai e logo após, pelo diretor da escola. E assim cursei os ensinos fundamental e médio.
Posteriormente ousei em ingressar numa universidade pública para cursar o ensino superior. Ser aprovado no concorridíssimo vestibular não foi problema, difícil foi conviver com a falta de acesso da UESPI daqui de São Raimundo Nonato.
Logo na entrada havia um degrau de aproximadamente meio metro de altura, e muitos outros no seu interior. Após dois anos pedindo e implorando, consegui que colocassem algumas rampas mal feitas que me ajudaram a ultrapassar os benditos degraus. Entretanto, para ter acesso aos banheiros não tinha rampa que desse jeito, pois existia uma escada no caminho. Ou seja, fazer as necessidades fisiológicas ali era tarefa simplesmente impossível para um cadeirante. Quer dizer, a não ser que eu me aliviasse no meio da sala ou do pátio, ao som dos gritos da platéia.
Meu curso era em período especial e eu tinha que ficar durante oito horas sem ir ao banheiro. Às vezes sentia uma necessidade muito grande de... mijar (pronto, falei) e seguia em direção ao banheiro, sem lembrar que não conseguia ir até lá. A seguir me deparava com a bendita escada, que logo gritava em tom de gozação: Ei, aqui você não passa! E eu me limitava a baixar a cabeça e voltar, derrotado.
Inúmeras vezes cheguei em casa sujo de urina, mas impulsionado pela minha teimosia, me sentia cada vez mais motivado e ao fim de quatro anos e meio concluí minha licenciatura plena em Letras/Português.
E os desafios continuaram. Serei sempre um eterno aluno da ousadia e teimosia.
Salvador de Castro
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