Gênesis Naum de Farias
Poeta e Acadêmico da Faculdade de Arqueologia
Universidade do Vale do São Francisco UNIVASF
Campus Serra da Capivara/PI
e-mail: cabarebruxelesco@yahoo.com.br
O que estuda a Arqueologia? Essa é uma pergunta que muitos não saberiam responder, ou até que responderiam, afirmando que estuda os povos antigos, somente isso. No senso comum a Arqueologia, assim como a História, encontram-se rotulados como a ciência que estuda o passado. Esse reducionismo dificulta a expansão desses campos de conhecimento transmitindo massivamente os conceitos da evolução da humanidade sem preocupar-se com os fatores históricos que conduziram o homem à necessidade de desenvolver métodos para alcançar o pleno desenvolvimento técnico e cognitivo para se efetivar dentro de uma cultura de contrastes marcada pela sobrevivência. O fato é que muitos estudantes não sabem o que é a Arqueologia, e o que ela estuda.
Para se responder faz-se necessário rever o seu nascimento ou a história do surgimento do pensamento arqueológico; tendo como parâmetro às questões realmente relevantes para determinar o papel a que a Arqueologia como ciência pode aspirar na história humana. Estará ela restrita a refletir a sociedade, e participar passivamente de movimentos políticos que transformam nossas vidas, ou poderá, como espera Childe (1946b, 1947b), desempenhar um papel importante, junto com o estudo da história humana, na criação de uma ciência do progresso mais objetiva, ajudando a elucidar questões sociais de grande importância e a guiar a humanidade rumo a um futuro melhor? (Trigger, pág. 360).
Na verdade, a Arqueologia só passou a ser vista como ciência quando rompeu com o antiquarianismo ou chamada Arqueologia de Gabinete; que entendia os artefatos culturais como símbolos de um poder acondicionado na procura desenfreada por objetos de culturas dos antepassados como forma de concentrar elementos na edificação dos grandes antiquários, buscando a construção de um saber descontextualizado no curso de sua história. A transição se dá quando o enfoque dessa disciplina científica sai do lugar comum e passa a compreender a história como um documento importante para a cultura dos povos do passado. Neste aspecto o objeto da Arqueologia toma outros rumos, passando a interagir com a história dos povos do passado e aceitar sua antiguidade, bem como sua evolução e suas fazes ou idades sistêmicas. Tudo isso, sendo apoiado por uma nova investidura de investigação, a partir das descobertas de campo, sendo utilizado novas perguntas e teorias que interagem com a história desses povos como documentos vivos.
Michel Foucault adverte que nos nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos.; por isso a Arqueologia tenta interpretar o ambiente buscando a relação histórico-cultural.
Como pode ser visto a Arqueologia é uma ciência nova, recente. Entendendo melhor o seu surgimento e o seu campo de saber, ela se desenvolveu da filosofia trazendo a idéia da racionalidade do ser humano bem como dos significados produzidos e defendidos pelas ciências sociais através das variáveis teorias do comportamento humano; de um modo especial à Etnologia e a História, disciplinas com as quais a Arqueologia tem mantido os vínculos mais estreitos. Trigger no livro História do Pensamento Arqueológico, página 18, ressalta: Conceitos teóricos oriundos da Geografia, da Sociologia, da Economia e da ciência política também têm influenciado a Arqueologia, quer diretamente, quer através da Antropologia e da História. Porém, na medida em que todas essas disciplinas foram conformadas pelos mesmos movimentos sociais que influenciaram a Arqueologia, com freqüência torna-se difícil distinguir as influências das ciências sociais incidentes sobre a Arqueologia das que lhes advêm da sociedade como um todo.
Nessa relação, a ciência arqueológica, norteia a concepção do indivíduo através da cultura material, como um elemento que interage e que também é interagido pelo contexto social. Nisto o Filósofo e Arqueólogo R.G. Collingwood explica esta relação, como uma problemática para refutar que nenhum problema histórico deve ser estudado sem que se estude... a história do pensamento histórico a seu respeito. (Runnel, 1984:490; Trigger, pág. 2).
Como uma área de conhecimento voltado a compreender o homem através de sua cultura material, a Arqueologia, considera o entrelaçamento do simbólico com o biológico e o social, e compreende que não há um isolamento entre esta cultura material de uma inserção histórico-social.
A Arqueologia é entendida em linhas gerais como a ciência que estuda os fenômenos e o comportamento do Homem ao longo de suas relações com o meio.
Nesta concepção, a cultura material é compreendida com resultado das relações criadas entre os indivíduos de forma racional, onde os artefatos falam por si sobre a natureza de uma história viva e em permanente transformação, definindo as intervenções do homem nas relações sociais do seu tempo.
Na prática, a Arqueologia visa o estudo do homem através dos seus vestígios materiais e como disciplina científica, procura identificar e explicar os mecanismos histórico-culturais de todo um processo desenvolvido pela espécie humana desde os primórdios de suas relações interpessoais com os fenômenos passiveis de expansão contínua.
Portanto, é preciso acreditar nesta ciência, que sem dúvida só tem a contribuir para o engrandecimento do pensamento crítico na academia brasileira. No contexto de Brasil e de Mundo, tem-se destacado como um paradigma crescente, pois tem sido pensada como uma disciplina aberta, e fomenta nos cientistas brasileiros uma suposta confirmação de que diante da indústria acadêmica, sua reafirmação confirma que o estudo dos homens e suas culturas não podem se fechar somente nas academias e museus. Trabalhos como os da Professora Niède Guidon sobre os grafismos rupestres na região Nordeste do Brasil mais precisamente no Parque Nacional Serra da Capivara, pretendem contribuir para o reconhecimento de uma identidade científica genuinamente brasileira, pois seus estudos sobre as culturas pré-históricas ornamentam um novo paradigma para a ciência na América Latina; tudo isto para fundamentar a contestação de que a dominância e o encastelamento do conhecimento não podem segregar o horizonte conceitual que uma investigação séria pode vir a ter frente ao capital cultural dos países que detém os saberes como uma fonte de poder.
Gênesis Naum de Farias