Mesmo tendo nascido no final de
um grande século, a paixão pelo conhecer me
transformou num dândi provocador, num poeta
maldito, num ser encantado. Essa razão de ser,
acendeu um rastilho de idéias, acenando como uma
atitude desafiadora: aprender a ler o mundo com
outros olhos. Foi assim que aprendi a sonhar
lendo o mundo com o desafio de modificá-lo nos
parâmetros de minhas ações.
A leitura sempre foi minha grande paixão; desde
cedo descobri nela uma outra parte de mim
enfocada similarmente nas descobertas do
imaginário poético, universalizado pelo
conhecimento do passado nas personagens que iam
me formando enquanto homem.
A arqueologia dos meus saberes, por esta época
já se fundamentava numa busca permanente pelos
caminhos do conhecimento; às vezes embrutecido
pelo frio arpejo de suas descobertas, às vezes
desencontrados, mas com a firme certeza de que o
que buscava sempre estava permeado pelo tom e a
destreza da aprendizagem.
O filósofo francês Gilles Deleuze pregava que o
homem era fruto do seu ponto de vista, por este
motivo aperfeiçoei todo este espírito romântico,
colhido nas experiências com a literatura, para
fortalecer o meu espírito para enfrentar os
desafios que realidade me ofereceria no futuro.
No mais, quando adentrei os portões da
universidade para cursar minha primeira
graduação, levei comigo toda àquela inquietação,
que como dizia Rimbaud, viria ao mundo para
anunciar a mudança de vida. Este Poeta me levou
a acreditar na capacidade de sentir e ser gente,
fazendo-me repensar valores e ampliar a
consciência íntima no universo que me abrigava.
Aprender a ler, foi pra mim, um processo mágico,
o mais inesquecível. Lembro-me de ter vivido
muitas eternidades olhando para o papel, em
infâncias grandiosas, na esperança de envelhecer
e abrir-me para o fantástico daqueles mundos.
Com isto, aprendi a amar, sendo um poeta
subitamente misterioso que combinava amor,
paixão e uma grande descoberta pelos livros.
Dos livros me revelei ao mundo, na transparência
de um encantamento juvenil, assim vivido
permanentemente, já que ainda hoje se restaura
em mim a segurança e a motivação para buscar o
conhecimento nas obras literárias, que me
tomavam de assalto numa profunda integridade com
o belo e o profano, no devanear pelos caminhos
da poética.
No dia em que me soube leitor, as circunstâncias
me legaram uma grande existência, feita de
sonhos e ficcionada paradoxalmente pelos
sentidos subjetivos do prazer, tornando-me um
ser pragmático e praxiológico. Neste contexto de
descobertas e decepções, uma pergunta invadia-me
sempre: como penetrar na esfera dos significados
do nosso tempo? Gaston Bachelard nos fala de uma
estética da angústia, para construir a
facticidade que obstina a imaginação a transpor
os fatores do nosso cotidiano na ânsia de
ampliar conceitos, através do processo
formativo, para fixar perspectivas que
esquematizem as multireferencialidades da
realidade apreendida.
Essa experiência primordial e fundamental, foi
sem dúvida, a força propulsora da vida que
escolhi viver e que, estou certo, acabaria
vivendo sem a ter escolhido: ser Poeta!
A minha busca intelectual ia se permeando por
estes pressupostos filosóficos, porque sei que a
realidade deste universo pós-humano é bem
desumana e, soma o meu sonhar aos dos grandes
poetas e filósofos que tentavam acordar a
humanidade do sono funéreo da especulação e da
desordem moral.
Não me compreendo se não compreendo o outro,
dizia Paulo Freire em seus escritos de
posteridade, por isso sou um ser inquieto que
escreve também para a posteridade, com a firme
convicção de que um dia trilharemos e entraremos
nas cidades cantando hinos de humanidades.
Durante muito tempo vivi para dentro, numa
intimidade muito profunda que ao me abrir para o
mundo, me descobri cheio de vazios, alegrias,
paridades e desassossegos.
Cultivei-me quanto pude, caprichoso e refinado.
Ampliando minhas limitações humanas, conheci os
poetas, os romancistas e, me tornei um romanesco
que vê o mundo como um caleidoscópio, cheio de
aventuras, heroínas e poéticos sensos comuns.
Mergulhei neste senso comum misterioso com José
Mauro de Vasconcelos, autor do célebre
livro Meu Pé de Laranja Lima, num primeiro
descobrimento; depois tudo me iluminava e
conferia ao cotidiano uma poesia de profundo
sentido mítico, pois as perguntas surgiam e
tornava-me um filósofo da vida sentimental do
mundo.
O conhecimento que me era permitido conhecer se
somava a uma grande viagem que me permitia fazer
pelo passado para se afirmar o presente,
portanto devia ser trilhado com a convicção de
uma descoberta sem malícia, na certeza da
construção dos pilares deste mesmo aprendizado.
E compreendendo as dificuldades da nossa
realidade familiar, nos seus aspectos
econômicos, eu ia construindo para mim um outro
mundo através da leitura: menos vazio e mais
cheio da espiritualidade do infinito.
Outro dia me dizia um autor inglês, do qual sou
leitor arvorado, que os tempos mudariam quando
as pessoas passassem a escrever suas próprias
histórias dialogando com o presente, sem
hedonismos, sem preconceitos e sem as maldades
do dia-a-dia.
Por isso entendia que a literatura e a arte do
passado e do presente, me projetavam ao mundo
com a sutileza e a leveza dos pássaros. Estes
universos me deram o divórcio para com a
inocência e forneceram preciosos elementos para
lidar com as pessoas que se me apresentavam.
Também foi o conhecimento da literatura que
depurou minha sensibilidade para bem usufruir as
boas coisas do mundo que se eternizavam
misteriosamente no meu cotidiano.
Depois conheci Baudelaire, Rimbaud, Mallarmé,
Oscar Wilde, Jorge Amado — meu escritor
predileto — Quintana, Carlos Drummond de
Andrade, Plínio Marco e João do Rio; com este
último, aprendi a ver a vida marginalizada pelos
hedonismos da inquietude individualista dos
seres humanos. Foi quando descobri Álvares de
Azevedo e me tornei um romântico convicto. Este
poeta até hoje me faz buscar em tudo o absoluto
som do infinito. Absoluto este, que se constrói,
se reconstrói e se destrói.
Mas a poesia se aclarou quando li Machado de
Assis e me perverti com sua destreza e seu
comportamento, suas sutilezas e seus rituais.
Depois me veio Clarisse Lispector, para me
deixar intimista, mas foi Castro Alves que me
embriagou pelo funéreo sentido da liberdade.
Este poeta sempre fez parte do que sou hoje; um
ser que busca a liberdade para se auto-afirmar
no complexo mundo das idéias.
Sua clareza e erudição me desafiaram a ser um
intelectual de mutações que ao mesmo tempo
pertence às multidões, mas é desencontrado e
vazio na sua solidão.
No permanente exercício da leitura destes
escritores, o que ia me impressionando era
justamente a capacidade que ainda têm de
expressão verbal através do poder de persuasão,
juntando a tudo isto as habilidades de
relacionar logicamente, de enriquecer o real
pelo rico mundo das metáforas.
Ainda quando adolescente conheci dois poetas
Ribeirinhos donos de uma humanidade que até hoje
me aplaca os sentidos. São eles: Virgílio
Siqueira e Maurício Ferreira, ambos de um sertão
que nos é capaz de ensinar como se dá a criação
poética, porque são exímios escritores de vidas
inesgotáveis. Eles me ensinam que o “nada é real
se não escrevo” — como dizia Virginia Woolf.
O universo da leitura ia aos poucos me tirando
do lugar comum para me transportar para um
universo só meu, acabando por me obstinar a
sonhar com uma liberdade que só existia no mundo
da ficção.
Parecem tolas as minhas convicções, mas refletem
a pessoa que sou, tendo em vista que sou um
entusiasta da educação pelo conhecimento que se
dá a cada instante em nossas vidas. A leitura,
como forma de anarquia, me deu virtudes e
riqueza, me deu angústias e liberdade, porque me
transporta, fatidicamente, para um universo que
precisa ser descoberto, transformado e
orquestrado.
Ao devanear sobre essa anarquização estética
pela capacidade de pensá-la, quero distinguir de
maneira absoluta a esquematização das
multiplicidades que mutilam a realidade para
fixar nossas perspectivas e maturidades no mundo
que se me apresenta no cotidiano. Por isso
escrevo com afinco para desprender minhas
reflexões, tornando-me um fazedor de palavras
para conscientizar o meu mundo através da
percepção do presente num futuro que se anuncia
vazio, e cheio de paridades.
Hoje, parece complicado devanear sobre qualquer
coisa, ainda mais se estas estão sobre o manto
diáfano da desilusão, do pessimismo, do
niilismo, dos achismos e dos ismos. É como se
filosofar fosse um ato banal e não tivesse a
devida importância para as pessoas no convívio
social.
Portanto, essas marcas são as insígnias de que
estou vivo e sonho com um mundo que ofereça
qualidade de vida diante da falta de utopia
deste início de milênio, provas de que o último
século nos deixou varias incertezas...
O Poeta — Parte II
O escritor Paul Auster costuma sentir-se muito
deprimido quando termina um livro. É como me
sinto ao concluir esta lavoura de arroubos
itinerantes, que roteiriza um ponto de partida
sem qualquer pressa em decifrar enredos ou
momentos de puro hermetismo na experiência
concreta com a sensibilidade do mundo da
poética.
Eu, às vezes, me vejo como o Fausto de Goethe,
que depois de tanto estudar filosofia, teologia
e praticar poesia, confessa-se um pobre
ignorante, entregando-se à magia; no tatear das
palavras que se consolidam nas entranhas do
tempo, numa cadeia de marcas imprecisas.
Ao me referir ao poeta alemão nesta breve
apresentação, faço-o para documentar que sua
vida como a minha, oscila entre a sombra e a
luz.
É tanto que, nos seus últimos instantes de vida,
ao se aproximar à morte, ele pediu para abrirem
a janela do quarto para que entrasse mais luz, e
foi mais ou menos isto que ele disse no seu
último suspiro.
A poesia que busco se parece com a alcunha
impressa por este poeta, pois sou arrebanhado
pela força das existências, onde, neste Flâneur
pelos caminhos da poética, mapeio encantos e
descrevo com fúria os recantos felizes da minha
infância, e as perturbadoras insolências da
minha mocidade — legadas pela profícua
convivência com a diversidade, marcada sempre
pelo trágico ato do pensar.
Somos, nós os poetas, seres presos duplamente ao
destino das existências de nós mesmos e do tempo
em que vivemos; exigindo-nos sempre mais, numa
longa e íntima familiaridade com os marcos e os
fatos das coisas da vida, ao transpor, com
naturalidade, as subjetividades que a
sensibilidade evasiva expõe cheia de paridades.
Nestes instantes, torno-me, por necessidade, um
fazedor de palavras e ansiedades, como forma de
expressão própria.
Esta militância, no entorno da palavra pensada,
é que demarcam os meus dias de filósofo no caos
de um cosmo tragicamente poluído pelas verdades
da existência. Aqui me reservo a percorrer o
caminho sem volta da poesia à procura do êxtase
que impulsiona a compaixão humana.
Todos os grandes poetas e filósofos viveram em
suas buscas existenciais o desenfreado
desencanto de uma evolução humana transviada e
sem a perspectiva de uma transcendência, que nos
dias atuais surge para atribuir à crescente
miséria espiritual e intelectual em que mergulha
a sociedade contemporânea, margeada pela
racionalidade na irrealidade do eterno, do
infinito, do necessário, do útil e também do
anacrônico.
As angústias encontradas nas palavras deste
Noviciado místico — “que induzem o espírito à
rebeldia” — só refazem a eufórica necessidade de
bradar para o mundo os imprites do meu discurso
árido e agressivo, entendendo que o maior grito
poético do mundo moderno é o grito por
liberdade; uma liberdade que lance aos céus do
futuro o mesmo clamor de desespero que nos
horizontes da agonia e da solidão, um poeta
precisa lançar para, misteriosamente, manifestar
seu fracasso e sua ascensão diante do misticismo
da procura pelo mundo perdido, como a fórmula
para transcender à força do destino e perpetrar
suas sonolências numa contemplação solitária,
para enfim continuar sua dolorosa peregrinação,
onde o fardo e a leveza apenas refazem o dilema
da insustentável leveza do seu ser.
Assim, é no cerne dessa travessia poética que
reluto com as forças do abandono de mim mesmo,
fazendo pequenos versos para sedimentar minha
linguagem simples e minha intransponível crença
de que a poesia que pretendo alcançar jamais
abandonará os sentidos da aprendizagem.
Também este escrito — o título o denuncia — é
antes de tudo um repouso para velhas insônias,
um feixe de encontros e desencontros, traduzidos
pelo esforço para tornar o presente suportável,
muitas vezes norteado por inseguranças
silenciosas...
O Acadêmico — Parte III
Quando me tornei acadêmico, aprendi que o mundo
vai muito além dos discursos e dos paradigmas,
fazendo-se crer que sua episteme evolui e
corrobora para um universo ainda menos
conhecido. Tudo isto me foi passado quando
amadureci as idéias e me tornei um intelectual
mutável, que se aplica aos sentidos dos
discursos e empreende saberes em suas ordens.
Acabei por regra do destino, cursando Pedagogia
na Universidade Estadual da Bahia, tendo por
estes tempos vivido e sofrido muito com a
necessidade de me permanecer nas zonas de
pertencimentos que a literatura do referido
curso me proponha. A simples necessidade de
sobreviver naquele que seria minha inserção no
universo acadêmico, acabou por transformar a
minha vida e ampliar os meus saberes dentro da
própria ordem que se ia me apresentando dentro
dos saberes formais e já agora, menos subjetivo,
porém presos a uma conexão de idéias que
acabariam por me levar a uma reflexão mais
ampliada.
Por fim, conclui a licenciatura plena, trabalhei
algum tempo na área da educação num lugar
fantástico, que mais parecia Macondo de Gabriel
Garcia Marques em Cem anos de solidão. A
experiência me foi recheada de descobertas; pude
enfim travar muitas discussões e testar as
teorias que havia aprendido na graduação.
O tempo passou e a fome pelo saber também se
ampliou, então fiz o vestibular para cursar
desta vez um bacharelado em Arqueologia; neste
curso me encontro, querendo sempre se saber em
permanente aprendizado, querendo viver e sentir
a vida passar, na ânsia de um reencontro com as
possibilidades da mistura dos saberes da
educação com os saberes arqueológicos.
Neste período, ao qual ainda me encontro, a vida
tem sido um permanente desafio de léguas; mal
havia eu passado no vestibular, perdi minha Mãe
para uma doença congênita e abandonei o curso
porque as dificuldades emocionais e financeiras
também não abandonavam a minha sofrida
existência.
Passado um ano e meio, retornei ao curso para me
engajar mais por entender que a vida precisa ser
enfrentada de frente. Com isto, busquei na
permanente solidão de si, uma saída para o total
despojamento, mesmo que ainda haja muitos
desapontamentos.
A academia me trouxe muitos desassossegos e
muitas alegrias, visto que através dela descobri
outro sentido para as minhas buscas existenciais
e, entre uma pesquisa e outra, uma leitura e
outra, vai-se percebendo que há possibilidade de
se melhorar para tentar melhorar a realidade que
a todos nós circunda.
Hoje mais amadurecido e mais silencioso, tento
apenas descrever o que sinto quando sou cobrado
a escrever algo que me impele objetividade. A
vida tende a nos exigir objetividades.
Neste contexto, não posso deixar de falar dos
meus pais; estes poetas iluminados que sempre
sonharam em ver seus filhos longe da marginália
e com um futuro mais acentuado. Estes, sempre
foram exemplos a serem seguidos, tornando-nos
pessoas responsáveis.
A luta para nos manter na escola foi árdua,
tendo em vista que possuíam seis filhos, e mesmo
sendo semi-analfabetos, conseguiram realizar o
feito maior de suas sobrevidas que era
justamente encaminhar sua prole na retidão dos
deveres morais para com a sociedade.
Ao senhor Geraldo Abílio de Farias e a senhora
Filomena Farias (In memória) — donos de uma
sensibilidade grandiosa e de uma força
magnânima, — devo-lhes tudo que sou; os sonhos,
a poesia... a vida.
Portanto, como acadêmico de Arqueologia levo
para os meus dias de estudante a certeza de uma
continuidade ética porque assim me quis o legado
dos meus pais, onde trilharei com reto conceito
o que me ensinaram, para já em vida futura e
profissional, não decepcionar nem os meus
mestres, nem os meus ideais...
Post-scriptum: Para saber mais, consulte
os textos relacionados abaixo, que contém parte
desta trajetória inglória e sem o calmo pungir
de uma poesia calma, feita de fatalidades, numa
vida que só foi sofrimento e tormentos...
- FARIAS, Gênesis Naum de. “O
Encontro marcado com o Século – Parte II”. In:
Diário da Região. Juazeiro – BA, ed. de 20/22
de janeiro de 2007, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. “O
Encontro marcado com o Século – Parte I”. In:
Diário da Região. Juazeiro – BA, ed. de 19 de
Janeiro de 2007, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. “O
Século das Angústias”. In: Diário da Região.
Juazeiro – BA, ed. de 09/11 de Dezembro de
2006, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. “A
Paixão pelo Conhecimento”. In: Diário da
Região – Caderno Dois. Juazeiro – BA, ed. de
10 de Julho de 2006, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de.
“Anarquista Graças a Deus”. In: Diário da
Região. Juazeiro – BA, ed. de 09 de Junho de
2006, p.02.
- FARIAS, Gênesis Naum de. “A
Arqueologia dos Saberes”. In: Diário da
Região. Juazeiro – BA, ed. de 22 de Novembro
de 2005, p.02.
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